domingo, 4 de dezembro de 2011

DOIS SAPOS

DOIS SAPOS
Um sapo vivia no fundo de um poço.
Lá nascera lá vivera, de lá nunca saíra e lá esperava morrer.
 O seu horizonte era de um metro e meio de largura
– o diâmetro do poço.
A profundidade de sua vida era de três palmos
 – como as águas do poço.

 
Para além da borda do poço, nada mais existia para ele.

Certo dia tombou no fundo do poço, um sapo de outras regiões.
Vinha de longe, de muito longe

Certo dia tombou no fundo do poço, um sapo de outras regiões.
Vinha de longe, de muito longe

- das praias do mar.
 
Com secreto rancor, viu o primeiro invadido pelo segundo o seu espaço vital.
Mas, como o segundo era mais forte, resolveu o primeiro não o guerrear e limitar-se à defesa passiva...
Depois de três dias de silêncio recíproco, travou-se entre os batráquios o seguinte diálogo:
De onde vens tu, estranho invasor?
Das praias do mar, ignoto ermitão.
Que coisa é esse tal de mar?
O mar?...
 O mar é uma grande planície de água.
Tão grande como esta pedra em que pousam minhas pernas gentis?
Muito maior, disse o outro sapo rindo.
Tão grande como esta água que reflete meu corpo esbelto?


Sorrindo o sapo disse:



 Maior, muitíssimo maior.




Tão grande como este poço, minha casa?
Mil vezes maior.
 Milhares de poços desses caberiam no mar que eu vi. O mar é tão grande que sempre começa lá onde acaba. É tão grande que quase todo o céu  cabe nele e ainda sobra mar.

Todos os sapos do mundo, pulando a vida inteira, não chegariam ao outro lado, tão grande é o mar à cuja margem nasci e vivi.


Furioso o outro sapo disse ao forasteiro:





Saia já daqui mentiroso!

Coisa maior que este poço não pode haver!


Mais água que esta água é mentira.
Desde então viviam os dois em pé de guerra, no fundo do poço.
Não diz a história se algum deles, super-sapo, venceu nessa luta veroz...
Nem diz se um deles, batráquio genial, convenceu o outro da verdade das suas idéias...
Consta apenas que, desde nesse tempo, vivem no mundo seres que só crêem em si mesmos...

Seres que sabem tudo o que os outros ignoram.
Seres que tacham de loucos os que afirmam o que eles não compreendem...
Seres de tão vasto saber que consideram desdouro aprender...
Não fale meu amigo, em mares – a quem mares não viu!
Deixa viver no poço quem no poço nasceu!
Horizonte de metro e meio, água de três palmos de fundo, pedra de meio palmo – que mais quer o sapo dum poço?


Deixa ao ignorante a sua feliz ignorância!

E nunca fale em mares a quem para um poço nasceu!
 
CADA QUAL COM O SEU IGUAL
CADA QUAL COM
SEU IGUAL!

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